A mim de ler a vida para deveras apreendê-la aquém e além da carga das palavras



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PREFACIANDO "MINDELER"

Histórico = De Mindelo ao Porto

Cerca de cinco léguas a norte do Porto, ao dealbar de 8 de Julho de 1832, uma frota de 60 embarcações com 7.500 homens a bordo, deu à costa na praia da Arenosa, areais de Pampelido, que se estendiam até às penedias de Mindelo, onde também se terá verificado, com cuidada e rigorosa organização, parte do então enorme e complicado desembarque. Curiosamente, entre os efectivos do exército liberal, contavam-se três intelectuais de futura grande evidência na literatura e na política do país: Almeida Garret, Alexandre Herculano e Joaquim António de Aguiar.

Acoitados no extenso e frondoso arvoredo que cobria a região, no dia seguinte, os soldados de D.Pedro tomaram de surpresa o burgo portuense, apanhando completamente desprevenida a guarnição miguelista. Uma vez consumado o audacioso assalto e já instaladas no seio da cidade, as tropas liberais, irmanando-se com o povo, suportaram estoicamente, durante quase dois anos, o cerco que de imediato lhes foi imposto pelo exército de D.Miguel, o qual apenas cessou a 23 de Maio de 1834, data em que o usurpador, claudicando em Évora-Monte, pediu o armistício aos chefes liberais.

Daí pois, historicamente, as designações de "Desembarque do Mindelo", de "Bravos do Mindelo" e da alcunha de "Tripeiros", honrosa e gloriosamente atribuída aos habitantes portuenses pela corajosa opção que tomaram para sustentar os seus defensores-libertadores: davam toda a carne limpa aos soldados e comiam as tripas. Hodiernamente quem é que nega e não se congratula com tão gostosa e tradicional refeição?

Contemporâneo = Do Porto a Mindelo

A partir de 1947, ido do Porto provisoriamente para casa de minha avó materna, a "tia Maria Ferreira" - saudável mãe de nove filhos e quatro filhas - no lugar da Estrada Nova, frequentei por uns tempos a 2ª. classe da escola primária em Mindelo, no Carvalhal, entre um ror de primos e muitíssimos jovens de quem hoje ainda nitidamente me recordo.

Experimentei assim inevitavelmente as providenciais canadas e reguadas do professor Guimarães, reguadas que também dei e apanhei dos companheiros escolares, sempre que éramos expostos a empolgantes sabatinas e desafios de saber. Fui companheiro de carteira do Vitor Guimarães, filho do professor e da professora que leccionava na sala contígua os alunos da 3ª. e 4ª. classes.

Na magnífica praia daquela altura, plena de maresia e límpidas areias, para enxotar medos e amainar os ímpetos nervosos, fui centenas de vezes mergulhado nas ondas pelos aguerridos braços da tia Fina, uma robusta e curtida mulher do mar, vestida de preto e de saia arregaçada até meio das luzidias coxas morenas em pernas de autêntico marinheiro.

De resto e sucessivamente, sem sequer por isso dar, eu perpassava, comendo, brincando e dormindo, pelas casas dos tios e tias que viviam em Mindelo: Balbina e Arnaldo, Valentim e Maria, Marcelino e Glória, Guilherme e Arminda.

Regressado ao Porto, ia todos os anos passar as férias grandes ao sol dos esplêndidos verões mindelenses. Bem gozados e inesquecíveis dias de praia fruí na companhia do Toninho da Micas, excelente e dinâmico futebolista, e do Fernando Camilo, ciclista e motociclista de extremos vagares. Contemplávamos então, em sonho e ansiosos por fazer o mesmo, as temíveis idas e voltas a nado ao penedo de Guilhado do doutor Amadeu e do António Sampaio, os que na época faziam jus em clássico estilo às improvisadas mas muito sólidas perfomances dos destemidos Larús.

Qual o objectivo e o efeito?

Pelos dois breves pormenores descritos, um histórico e outro contemporâneo, está lançada a minha intervenção no que sobre Mindelo de futuro se me sugerir escrever neste sítio, esperançado que os meus amigos o continuem assim que eu desaparecer. Entre as memórias que me bailam na mente, carecerei entretanto de muitíssima informação e elementos que vou tratar de recolher criteriosamente entre aqueles que conhecem e sabem de pele das coisas e causas mindelenses, para que seja o mais fidedigno possível nos relatos que tenciono efectuar sobre a terra que ao longo da vida, estivesse eu onde estivesse e fosse para onde fosse, sempre trouxe permanentemente comigo no pensamento e no coração. Afinal e em cômputo, ainda que entretanto tenha ido a longínquos lugares do mundo, entre Porto e Mindelo desde sempre vivi os mais estreitos afectos da minha vida. E continuo a viver, de saudade ao ombro ao irromper pela derradeira esquina da minha existência.

António Torre da Guia

O OUTRO MINDELO

No arquipélago de Cabo Verde, localizada na ilha de São Vicente, a cidade do Mindelo tem uma população de 63.000 habitantes, ditos mindelenses, é sede do concelho do mesmo nome, sendo também a segunda maior cidade do país que foi colónia e província portuguesa até 1975. Abrange uma área de 67 kms2 a noroeste da ilha, na Baía do Porto Grande, porto este natural constituído pela cratera submersa de um vulcão com cerca de 4 kms de diâmetro. No Ilhéu dos Pássaros, a 82 mts de altitude, existe um pequeno farol para sinalizar a extremidade oposta da cratera.

Haverá porventura qualquer espécie de ligação entre os dois Mindelos? Por improvisada dedução de lógica linguística, em princípio muito longínquo, pressupondo com efeito o acto ou a coisa a que se referia, presumo que o vocábulo significaria "meu e dele", tal como, por exemplo, se deduz quanto a Fornelo - "forno dele" - Canidelo - "cão dele" - Lordelo - "ouro dele" - Cabedelo - "cabo dele". Estarei eu caindo em dedutiva asneira? Se estou, decerto alguém entendido na vertência acorrerá com oportunidade a esclarecer a origem do nome e quiçá também informando se há ou não ligação factual entre os dois locais. Na Internet, o Mindelo caboverdeano é percentualmente muitíssimo mais considerado do que a freguesia vilacondense.

CORRIDA SENSACIONAL

Em breve, os cidadãos de Mindelo, que fruiram décadas do precioso serviço que o regime salazarista - corja facista - corajosa e quanto possível eficientemente lhes prestou, experimentarão, após um lustro de caos transitório, o avançado progresso que a abrilina democracia - cambada corrupta - esgotando de todo o ouro armazenado pela poupança, lhes irá proporcionar em futuro decorrente.

As contas, pelos dedos, continuam a ser muitíssimo fáceis de fazer: em quanto tempo chegarão os utentes doravante ao Porto e à Póvoa, e quanto por isso terão de pagar? Claro que, para aqueles que em cantigas só vão se a cantiga bem lhes cair nos tímpanos, o novo metro continuará a ser como o antigo combóio: será combóio até à Lapa e, daí, até à Trindade, será metro como sempre foi.

Então, na velhinha-e-nova estação de Mindelo, o desiderato está sobre carris: saudade e actualidade lado a lado, prontas para a sensacional corrida no tempo, onde e felizmente, os jovens nunca darão por isso agora. Como nos primórdios, Abel e Caim estão em feroz compita e continua a não entender-se claramente como depois se terão reproduzido. Pelo menos, uma voz muito agradável surgirá a avisar: "Próxima paragem... Mindelo". Esqueceram-se de aplicar um sistema trepidante para acordar quem se deixe adormecer. Os carteiristas terão de mais sabiamente adestrar as mãozinhas por forma a não serem colhidos pelas câmaras de vigilância...

Há uns largos meses que não revejo o meu amigo Tino. Gostaria de saber como vai o seu ego em face da carreira profissional por que tanto empenhadamente lutava. Ora então não é pela experiência da pele que a gente pesa o sonho quando chega a hora de fruí-lo em pleno? Ele dir-me-ia, num ápice, se a mudança foi boa ou não.

Texto: Torre da Guia

Imagem: Rui Maia


A MOAGEM



Quem veio e soube ficar
No nosso humilde cantinho
Não se esqueça de guardar
O futuro com carinho.


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